quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A SORTE

                                    Luiz Delfino      
   

   
       
__Por que vou ver das colinas
a manhã que nos sorri?
Eu sei lá. Subo, imaginas?
Acaso vou eu sem ti?

Queres saber por que cismo?
Não sabes mimosa flor?
E tu, por que cismas tanto
às horas do sol em por?

Queres saber o que fazem
os meus olhos por céus além?
E os teus, que fazem? Não erram
perdidos por lá também?

Por que suspiro abaixando
a fronte plácida ao chão?
E tu, por que a fronte inclinas
por que suspiras então?

O que procuro – alta noite –
lá dentro nos olhos teus?
E tu, mulher, o que queres
o que procuras nos meus?

Que doce mistério é este?
Eu quem sou, e tu quem és?
Tu... Toda a luz da minha alma.
Eu... A sombra dos teus pés.

Eu sou a noite que doura
da tua estrela o fulgor
Eu sou o vale profundo
tu és a pálida flor.

Eu sou a vaga sombria
que soluçando correu
Tu és o raio perdido
que em suas águas bateu.

Eu sou a árvore agreste
que nos rochedos brotou
Tu és o pássaro lindo
que nos seus ramos pousou.

Eu sou as folhas do livro
tu és a lenda de amor
Eu sou o vaso, e tu, virgem,
tu és o suave odor.

Da vida às margens risonhas
onde há só nudez e paz
Eu rosas estou colhendo
tu rosas colhendo estás!

Ai! Embalemos as almas
num berço de amor sem fim!
Eu não quero... tu não queres...
Mas a sorte o quer assim!...


Comentário por Simone Carvalho:

 Linda poesia de amor! O homem enamorado fala com sua amada delicadamente, sobre as dúvidas que ela tem a respeito dele:
- dos lugares que frequenta (colinas)
- dos momentos de silêncio (Queres saber por que cismo?)
- do olhar perdido no horizonte (Queres saber o que fazem meus olhos por céu além?)
- dos suspiros (por que suspiro abaixando...)
- daquele olhar mais profundo (o que procuro... nos olhos teus).

E ele esclarece que todas as reações que ela menciona, são igualmente reações dela. Portanto, estão no mesmo patamar de sentimento. (Ele e ela colhendo rosas).

E conclui: Terem se encontrado, mesmo não querendo, não procurando, foi uma SORTE!

 SOBRE O AUTOR:

Luís Delfino dos Santos (nasceu em Desterroo/SC, em 25 de agosto de 1834 — Faleceu no Rio de Janeiro, em 31 de janeiro de 1910) foi um médico, político e poeta brasileiro. É considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina, superado apenas por Cruz e Sousa.
O amor e a mulher eram seus temas preferidos.
Filho de Tomás dos Santos e de Delfina Vitorina dos Santos. Casou-se com Maria Carolina Puga Garcia dos Santos, tendo como filho, entre outros, Tomás Delfino dos Santos.
Morou em sua cidade natal até os dezesseis anos de idade. Mudou-se então para o Rio de Janeiro,  onde se formou em medicina pela  Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1857.
Não publicou nenhum livro em vida, o que fez com que sua obra quase se perdesse no tempo.  Sua poesia, de rima e métrica perfeitas, era publicada frequentemente na maioria dos jornais e revistas da sua época, o que o fez conhecido e amado como poetaFoi eleito pelos colegas escritores "Príncipe dos Poetas Brasileiros" em 1898. Foi chamado também de  "Victor Hugo brasileiro". Sua obra é imensa - escreveu mais de cinco mil poemas - e foi publicada em quatorze livros, por seu filho, Tomás Delfino dos Santos, entre 1926 e 1943. Sua poesia vai do romantismo ao parnasianismo, passando pelo simbolismo. A perfeição na rima, em métrica dá cadência e musicalidade à obra de Luís Delfino.  
O amor e a mulher eram seus temas preferidos.
Conhece-se colaboração sua no semanário Branco e Negro [1] (1896-1898).
É patrono da   Academi Santoamarense de Letras.
Foi  senador por Santa Catarina no início da República Velha.

Quanto à grafia de seu nome, embora a forma preferida e mais largamente usada atualmente seja "Luís" (com S), todos os seus trabalhos como senador eram assinados como "Luiz" (com Z), portanto ambas as grafias podem ser consideradas corretas.

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