sábado, 3 de dezembro de 2016

O BEIJO DO PAPAI

                                   Eustórgio Wanderley

Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heroicos Nipões , calmos filhos do Oriente.
Em torno do Porto Arthur o cerco se apertava,
como um cinto de ferro e fogo que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar ou por ali passasse.
Da boca do canhão, a morte, a rir traiçoeira
partia a cada instante e na veloz carreira
a vida ia ceifando aos míseros soldados
tão desumanamente, assim sacrificados!
Quando uma tarde, que cessara de momento
canhoeira como a cobrar novo alento,
junto à linha de fogo, uma adorável criança
sem mostras de temor e cheia de confiança
aparece correndo. O olhar de quem procura
ansiosa descobrir, naquela massa escura,
de uniformes e fumo, um rosto conhecido;
o risonho perfil de um semblante querido.
Ao ver a pequenina, um japonês, um bravo,
que como língua pátria entendia o eslavo,
pergunta-lhe, tomando em suas mãos calosas
as mãozinhas da criança, alvas e cetinosas:
“__Que desejas, pequena, que procuras em meio
da tropa que aqui vês, e exposta ao bombardeio?
Quem és tu, de onde vens? Que nome tens, menina?”
“__Meu nome” – ela responde – “eu te direi, é Lina,
Procuro meu papai que há muito foi embora.
Há muito que não o vejo e desejava agora
vê-lo outra vez...” “__Para quê?” – pergunta novamente
o filho do Japão, dizendo incontinente:
“__Ele aqui já não está, segue aí adiante,
porém, se algum recado ou coisa semelhante
quiseres que eu lhe dê, breve irei encontra-lo.
Descreve-me os sinais daquele de quem falas
e eu prometo cumprir teu desejo inocente.”
“__É fácil reconhecê-lo” – informa ela contente.
“__É alto o meu papai, é forte e musculoso.
Tem como eu tenho olhos azuis e é formoso
o seu rosto barbado. É claro o seu cabelo,
também da cor do meu, como bem pode vê-lo.”
E do seio retirando um pequeno retrato
acrescenta a sorrir: “Façamos um contrato:
Eu lhe dou este papai pra que não te esqueças,
e vendo o verdadeiro em breve, o reconheças.
Chama-se Ivan.”
“__Pois bem”, - disse o nobre soldado,
que o retrato guardou. Dá-me agora o recado
que hei de procurar o teu papai e em breve...”
“__Mas não é um recado que te peço que leves”
(replica-lhe a menina).
“__Então, dizes o que queres e eu prometo
cumprir o que tu me disseres.”
“__Pois sim”, - Lina responde. – “É este o meu desejo:
Chega junto ao papai e entrega-lhe este beijo...”
Assim dizendo, salta ao colo do soldado
e beija-lhe o semblante em lágrimas banhado.
Um bravo que não chora, ante a terrível matança
chorou ao receber o beijo da criança...
E como o canhão ouvisse bramindo, Lina foi-se
a correr por onde tinha vindo!
Durante a noite inteira o fogo não cessara,
a tropa de aliados aos poucos avançara
num assalto feroz com o inimigo em frente;
cada qual mais cruel, cada qual mais valente!
Quando enfim, à vitória as trombetas ecoaram
e as bandeiras do Sol Vermelho tremularam
sobre a trincheira russa à força conquistada,
todo o céu se aclarava à rósea madrugada,
e pelo campo em fora os mortos e feridos eram,
sem distinção, por todos recolhidos.
Quando, ao ver de um soldado a face descorada
pendida sobre o peito, a blusa ensanguentada,
lembrou-se o japonês das feições da criança.
Olha o retrato e vê: perfeita semelhança.
Era um russo, o ferido, e o japonês o chama: “__Ivan!”
“__Que queres?” o moribundo exclama, surpreso
ao ver seu nome proferido por lábios de um inimigo.
“__Eu te trago escondido” – o bravo continua –
“um beijo que te envia tua filhinha Lina...
Ela mesma o daria se pudesse vir cá.
Não podendo, guardei-o
para agora o depor em tua face em meio”.
E ao dizer isso, calmo o filho do Oriente
beija a fronte do russo e o abraça ternamente.


Comentário por Simone Carvalho:



Esta poesia é clara na sua mensagem. 
É um tempo de guerra, duas nações disputando. Muito sangue, muitas mortes de ambas as partes e numa tarde, depois da batalha, em meio a tantos corpos mutilados, aparece Lina procurando seu papai, e em sua inocência, responde às perguntas de um  inimigo de seu pai. Um japonês. Ela quer mandar um beijo para o pai, um russo chamado Ivan. O japonês promete procurá-lo e dar o recado. Quando o Japão vence a batalha e hasteia sua bandeira (o Sol Nascente), o japonês encontra o russo Ivan, naquele chão, ensanguentado. Chama-o pelo nome para confirmar. E, apesar de ser um inimigo, cumpre o que prometera à Lina: entrega-lhe o beijo na face! 

E nós, quando lemos esta poesia, observamos que a guerra pode separar os povos, mas, cada soldado traz consigo sentimentos bons. São pessoas que, talvez, se pudessem escolher, não estariam ali lutando. Prefeririam estar em casa com suas famílias!
Eu adoro poesia!

        SOBRE O AUTOR: 

                        

Eustórgio Wanderley nasceu no Recife em 05.09.1882 e faleceu no Rio de Janeiro em 31.05.1962. Foi jornalista, professor, poeta, compositor, pintor e teatrólogo. Trabalhou como jornalista no Diário da Manhã do Recife e no Jornal do Recife. Mudou-se para o Rio de Janeiro e trabalhou no Correio da Manhã, A Noite Ilustrada, Jornal do Brasil, O Malho, O Tico-Tico. Escreveu Pequena Biografia, Jornal de Poesia – O Beijo do Papai e Padre Machado. Suas composições musicais foram: A Pianista, O Almofadinha, A Melindrosa, No Bico da Chaleira. Como teatrólogo, escreveu O Tio da Roça, e em parceria com Valdemar de Oliveira e Samuel Campelo, O Mistério do Cofre.  

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